Murciélagos
*
Los murciélagos se esconden entre las cornisas
de la aduana. ¿Pero dónde se esconden los hombres,
que sin embargo vuelan toda la vida en la oscuridad,
chocándose con las paredes blancas del amor?
La casa de nuestro padre estaba llena de murciélagos
colgantes, como luminarias, de las viejas vigas
que sustentaban el tejado amenazado por las lluvias.
“Estos hijos nos chupan la sangre”, suspiraba mi padre.
¿Qué hombre tirará la primera piedra a ese mamífero
que, como él, se nutre de la sangre de otros bichos
(¡mi hermano! ¡mi hermano!) y, comunitario, exige
el sudor del semejante incluso en la oscuridad?
En el cerco de un seno joven como la noche
se esconde el hombre; en la paja de su almohada, en la luz del
[faro
el hombre guarda las monedas doradas de su amor.
Pero el murciélago, durmiendo como un péndulo, sólo guarda el día
[ofendido.
al morir, nuestro padre nos dejó (a mí y a mis ocho hermanos)
su casa donde por la noche llovía a través de las tejas quebradas.
Pafamos la hipóteca y conservamos los murciélagos.
Y entre nuestras paredes ellos se debatían: ciegos como nosotros.
~
Las iluminaciones
*
Me desmorono en ti como una bandada de pájaros.
Y todo es amor, es magia, es cábala.
Tu cuerpo es bello como la luz de la tierra
en la división perfecta del equinoccio.
Suma del cielo gastado entre dos hangares,
eres la altura de todo y serpenteas
en el fabuloso suelo esponsalicio.
Se transforma la noche en día porque existes,
femenina y total entre mis brazos,
como dos mundos gemelos en un sólo astro
~
El camino blanco
*
Voy por un camino blanco.
Viajo sin llevar nada.
Mis manos están vacías.
Mi boca está callada.
Voy sólo con mi silencio
y mi madrugada.
No escucho, entre los barrancos,
la voz del gallo estridente
que, en la tiniebla de la explanada,
anuncia las alboradas.
Ni siquiera escucho mi alma:
no sé si va durmiendo
o me acompaña despierta,
si es viento o si es ceniza
o nube roja radiante
el día que se levanta
como vela desdoblada
en nave que corta las olas.
Ni siquiera sé si es alma
o sólo sal de lágrimas.
Voy por un camino blanco
que parece la Vía Láctea.
Sólo sé que voy tan solo
que ni siquiera me acompaño,
como si yo fuese un camino
pisado por bulto extraño.
No sé si es día o si es noche
lo que surge delante de mí,
si es fantasma del pasado
o viviente del presente.
No sé si es el torrente claro
del agua que corre entre piedras
o si un halcón me vigila
oculto en la niebla,
espantapájaros prometido
a mi último día.
Atravesando barrancos
y plantaciones de tomate
y oyendo el canto escarlata
de airosos gallos polacos,
voy por un camino blanco:
blancura de bruma y plata.
Entre ramos de carqueja
hay constelaciones de rocío
y una claridad de mediodía
ciega mi madrugada.
Voy como vine, sin saber
la razón de la travesía.
Ni siquiera llevo en la boca
el sabor de agua salada
que recuerda a mi infancia
hecha de mar y de mangle.
Ni siquiera llevo en los ojos
- en mis ojos de niño -
la mancha roja de sangre
dejada por el asesino
que vi cierta madrugada.
Voy por un camino blanco
y nada llevo ni tengo:
ni nido de pajarito
ni fuego santo de leño.
Sólo voy llevando mi nada.
Es todo lo que he juntado
para ofrecerle a Dios
esta madrugada.
~
Balada insolente
*
Al amor, como al baño
se debe ir desnudo
llevándose no obstante
calcio y Poesía.
Y se debe exigir
más que la muerte,
la vida; movimientos
libres y respiración.
Que, en este momento,
la Poesía sea
risa y no lágrimas.
Nunca asaz alabada,
que esté siempre
al servicio de la vida
sin traicionar a los hombres.
Poesía y calcio.
Al amor, que lo tiene todo,
Se debe ir sin nada,
llevándose sin embargo
provisiones de harmonios
incluso en la mirada.
En la noche higiénica
el viento balancea
grandes flores: calcio.
***
Lêdo Ivo (Maceió, 1924-Sevilla, 2012)
Versiones de Raquel Madrigal Martínez
/
Os Morcegos
*
Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteira no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
“Estes filhos chupam o nosso sangue”, suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz do
[farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda o dia
[ofendido.
ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre as nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
~
As Iluminações
*
Desabo em ti como um bando de pássaros.
E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.
Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.
Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.
~
O Caminho Branco
*
Vou por um caminho branco
Viajo sem levar nada.
Minhas mãos estão vazias.
Minha boca está calada.
Vou só com o meu silêncio
e a minha madrugada.
Não escuto, entre os barrancos,
a voz do galo estridente
que, na treva do terreiro,
anuncia as alvoradas.
Nem mesmo escuto a minha alma:
não sei se ela vai dormindo
ou me acompanha acordada,
se ela é vento ou se ela é cinza
ou nuvem rubra raiante
no dia que se levanta
como vela desdobrada
em nave que corta as vagas.
Não sei nem mesmo se é alma
ou apenas sal de lágrimas.
Vou por um caminho branco
que parece a Via Láctea.
Só sei que vou tão sozinho
que nem sequer me acompanho,
como se eu fosse um caminho
pisado por vulto estranho.
Não sei se é dia ou se é noite
o que surge à minha frente,
se é fantasma do passado
ou vivente do presente.
Não sei se é a torrente clara
da água que corre entre pedras
ou se um gavião me espreita
oculto no nevoeiro,
espantalho prometido
ao meu dia derradeiro.
Atravessando barrancos
e plantações de tomate
e ouvindo o canto escarlate
de airosos galos polacos,
vou por um caminho branco:
brancura de bruma e prata.
Entre tufos de carqueja
há constelações de orvalho
e um clarão de meio-dia
cega a minha madrugada.
Vou como vim, sem saber
a razão da travessia.
Nem sequer levo na boca
o gosto de água salgada
que relembra a minha infância
feita de mar e de mangue.
Nem sequer levo nos olhos
- nos meus olhos de menino -
a mancha rubra de sangue
deixada pelo assassino
que vi certa madrugada.
Vou por um caminho branco
e nada levo nem tenho:
nem ninho de passarinho
nem fogo santo de lenho.
Só vou levando o meu nada.
Foi tudo quanto juntei
para oferecer a Deus
nesta madrugada.
~
Balada Insolente
*
Ao amor, como ao banho
deve-se ir nu
levando-se contudo
cálcio e Poesia.
E deve-se exigir
mais que a morte,
a vida; movimentos
livres e respiração.
Que, neste momento,
a Poesia seja
riso e não lágrimas.
Nunca assaz louvada,
que ela esteja sempre
a serviço da vida
sem trair os homens.
Poesia e cálcio.
Ao amor, que tem tudo,
deve-se ir sem nada,
levando-se no entanto
provisões de hormônios
até mesmo no olhar.
Na noite higiênica
o vento balança
grandes flores: cálcio.





